Por que estudar masculinidades?

Por Diogo Luiz de Araújo.

O campo de pesquisa sobre masculinidades ainda é muito incipiente, tendo início com os primeiros estudos nos anos 70 e 80, os chamados men’s studies nos Estados Unidos. No Brasil é ainda mais recente, com os estudos pioneiros de Durval Albuquerque no final dos anos 90 e início dos 2000. Porém, muitas das pesquisas desenvolvidas no Brasil demonstram essa relação colonial do norte global com o sul global, reproduzindo as ideias de autores e autoras dos países centrais.

Contudo, a relevância destes estudos é inegável diante da conjuntura atual. Na busca pela libertação das mulheres, os movimentos feministas deslocaram os homens dos seus eixos de acomodação e os fizeram problematizar seus privilégios, o patriarcado e as masculinidades hegemônicas que por tanto tempo vem oprimindo as mulheres. Diante disso, o macho contemporâneo se encontra hoje em crise com suas formas de ser, e busca, a partir de então, novas masculinidades que possibilitem convivências mais harmoniosas com as mulheres e com outros homens também, o que bell hooks chama de masculinidade feminista.

À luz da história, entendemos que este modelo de masculinidade viril foi construído socialmente para justificar a dominação dos homens sobre as mulheres. E no centro desta construção está o medo e a repulsa ao feminino, dando origem ao “homem mutilado”, nos termos de Elisabeth Badinter, pois ele literalmente realiza uma mutilação de uma parte de si, a sua feminilidade. Dentre as sociedades patriarcais, é comum a prática de ritos de iniciação entre homens jovens que envolva provas e deveres. A masculinidade para o homem deve ser conquistada, isto é, o homem tem que se provar homem por meio de um processo de aprendizado e conquista, ao contrário do que é concebido para as mulheres, que têm sua feminilidade dada como natural.

Portanto, compreender os mecanismos históricos de reprodução da divisão sexual nos auxilia no entendimento das relações de gênero atuais. A história da masculinidade ocidental nos serve de suporte para a análise das construções masculinas hegemônicas e os conflitos que delas desembocaram. Obviamente as formas de ser e agir masculinas são múltiplas, logo cada análise deve considerar as variáveis de raça, classe, gênero, localidade, geração, etc. Ademais, novos campos de pesquisas, como as teorias queers, vem contribuindo para uma compreensão mais abrangente das relações de gênero ao longo da história.       

Referências bibliográficas

BADINTER, Elisabeth. XY: Sobre a Identidade Masculina. RJ: Ed. Nova Fronteira, trad. Maria Ignez Duque Estrada, 1993.

HOOKS, bell. Feminist Theory: from margin to center. New York: South End Press, 2ª Ed. [1984] 2000.

Diogo Araújo

Graduando em História pela UFPR.

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