História Agora

Um olhar sobre a ciência medieval (Parte 2)

A maior parte dos filhos das elites citadinas das cidades italianas do século 15 frequentaram as escolas leigas privadas ou municipais. Nos níveis mais básicos aprendiam a ler e escrever, algumas noções básicas de correspondências e fórmulas notariais. A base do ensino em níveis mais avançados era a matemática, constituindo o núcleo central da formação intelectual e cultural de grande parte dessas elites. A natureza desse conhecimento era comercial, isto é, cumpria as exigências do comerciante. Como apontado por Baxandall, os pintores do século 15 utilizaram profundamente de duas noções essenciais dessa base matemática – a geometria e a aritmética. Baxandall aponta que uma boa parte dessa classe de artistas também se encontrava no seio da classe média, portanto tinham a mesma base da formação intelectual de seus patrocinadores. A capacidade que um pintor tinha ao analisar as formas que pintava era a mesma de qualquer comerciante para medir quantidades.

O público culto tinha as mesmas noções geométricas para apreciar uma pintura, era também seu instrumento para expressar suas opiniões e, segundo Baxandall, os pintores buscaram aplicar essas noções exatamente para atrair a atenção para suas obras. Para isso, o melhor meio foi utilizar intensamente do repertório de formas usuais nos exercícios de mediação, familiares ao observador que havia aprendido geometria, como cisternas, colunas, torres de tijolos, superfícies pavimentadas, entre outros. Assim quando o pintor retratava uma tenda, incentivava seu público a medir, propensos a reconhecer na tenda, uma combinação de cilindro e cone. De acordo com Baxandall era um modo também de satisfazer a exigência da Igreja da pintura servir da virtude particular da proximidade e da força do sentido.

O pintor dependia da disposição de seu público para medir. O homem de comércio, alvo do pintor, tudo era reduzido a figuras geométricas subjacentes as irregulares superficiais. Da mesma forma este media um fardo, o pintor também media uma figura. Nos dois casos há uma redução consciente para combinações de corpos geométricos calculáveis. Segundo Baxandall, um artista que deixasse traços desse tipo de análise, deixava também para seu público sugestões de leitura, que estavam prontamente preparados para receber. A análise das obras, elementos que chamam a atenção do público, se torna um ato prazeroso, aplicando os mesmos valores que as elites citadinas tanto valorizavam. De acordo com Baxandall “os conceitos geométricos que um medidor e sua disposição para exercitá-los apuram a sensibilidade visual que um homem pode ter da realidade de um volume”, assim ele está predisposto a compreender os elementos constituintes de um quadro. Isso constituía um estímulo para o artista usar os meios de que se dispunha.

Seguindo Baxandall, se criou certas convenções, como a toscana que buscava sugerir uma massa indicando as nuanças de luz e sombra para mostrar o volume da figura, ou, também a da região norte da península itálica, que indicava a massa mais pelos contornos característicos que a delimitavam, provocando uma impressão de mobilidade. A aritmética era outro ramo típico da matemática comercial da cultura quatrocentista, principalmente o estudo das proporções. Grande parte do conhecimento de aritmética do século 15 tem origem na Índia, que através do mundo muçulmano foram importadas pela Itália, junto a muitas outras noções matemáticas, no início do século 13.

Como apontado por Baxandall, o instrumento aritmético universal da burguesia italiana na Renascença foi a regra de três, que se constitui na multiplicação de X (sendo X o termo almejado) pela parte que lhe é diferente, e dividir o produto pela parte que sobrar. Segundo Baxandall é da natureza da fórmula que “o primeiro termo esteja para o terceiro assim como o segundo está para o quarto, e também que o primeiro termo esteja para o segundo assim como o terceiro está pelo quarto”, possibilitando que “se se multiplicar o primeiro termo pelo quarto, o produto será o mesmo que o produto da multiplicação do segundo pelo terceiro”. Este método foi o modo que os homens renascentistas tratavam os problemas de proporção, algo de extrema importância em questões de corretagem, desconto, abatimento de tara, alteração de mercadorias, trocas e câmbio.

Cabe destacar que em cada cidade havia um sistema de câmbio diferente, assim o uso da aritmética era de grande importância. A sociedade renascentista se tornou hábil, pela prática cotidiana, em reduzir os mais diferentes dados a uma fórmula de proporção geométrica. Como já dito, a base da formação dos pintores renascentista era a mesma dos homens de comércio, sendo que muitos também foram comerciantes, a aplicação de métodos aritméticos nos quadros foi uma ferramenta comum para os artistas do quatrocentos, como por exemplo no “jogo sutil dos espaços em suas pinturas”. Dessa forma o público também tinha meios para perfeitamente compreender a proporcionalidade nos quadros. A proporção geométrica dos comerciantes era até mais complexo do usado comumente pelos pintores. De acordo com Baxandall “o poder de sugestão da proporção geométrica levava a uma tendência para a proporção harmônica”.

Em diversos casos músicos, arquitetos e pintores utilizaram a sequência da escala harmônica de Pitágoras. Esse conhecimento constituía uma disposição para se abordar a experiência visual, como apontado por Baxandall, podendo atrair a atenção as estruturas de formas complexas e sua disposição no espaço da obra38. Os homens de comércio, dessa forma, eram sensíveis aos quadros que portassem traços de processos análogos. Segundo Baxandall há uma continuidade entre a capacidade matemática da burguesia comercial e aquela utilizada pelos pintores para produzir a proporcionalidade pictural e a rigorosa solidez presente nos quadros. A posição privilegiada desse conhecimento na sociedade renascentista era para o pintor um encorajamento para inseri-las abertamente em suas pinturas, o que foi feito em diversas vezes, algo que manifestava, como Baxandall chama, a profusão de habilidades, exatamente o motivo pelo qual o cliente pagava pela obra. Há de se comentar do princípio básico da perspectiva linear, que muitos pintores usavam. Este princípio afirma que a visão segue linhas retas, as linhas paralelas sempre se encontram em um único ponto de fuga. Os pintores tiveram o cuidado de evitar que a perspectiva de uma pintura parecesse tendenciosa e esquemática. Baxandall aponta que uma boa parcela da sociedade renascentista estava habituada a ideia de aplicar a geometria plana a outros objetos e lugares, justo porque haviam aprendido isso para medir construções e extensões de terra.

A ideia de perspectiva de compor um sistema de ângulos calculáveis e de linhas retas imaginária era e foi algo possível para os pintores. Segundo Baxandall a junção entre a experiência geométrica que permitia a construção prospectiva complexa e a cultura religiosa que permite aplicar um sentido alegórico, resultou na nuança suplementar que caracteriza a representação narrativa dos pintores do século 15. Esta perspectiva é apreendida também como uma metáfora visual, podendo ser percebida como símbolo analógico de uma convicção moral, como também de uma visão escatológica da beatitude de acordo com Baxandall.

REFERÊNCIAS

BAXANDALL, Michael. O Olhar Renascente: Pintura e Experiências Social na Itália da Renascença. Trad.

ALMEIDA, Maria Cecília Preto R. Editoria Paz e Terra. 1991.

DUBY, Georges. O tempo das catedrais: a arte e a sociedade, 980-1420. Editora Estampa, Lisboa. 1979

GOZZOLI, Maria Cristina. Como reconhecer a arte gótica. Edições 70. 1978

PANOFSKY, Erwin. Arquitectura gotica y pensamiento escolastico. Coleção Genealogia del poder. Editora La Piqueta, Madrid. 1986.

VIEIRA, Rivadávia Padilha. Da imago ao retrato moderno: o debate sobre os usos funções da imagem no medievo e a definição do gênero retratístico moderno. Revista Historiador Especial, Nº 01, Ano 03. 2010, Pág. 135-154. Disponível em: http://www.historialivre.com/revistahistoriador. Acesso em 17 de julho de 2017.

Gabriel Rodrigues

Estudante do curso de História - Memória e Imagem da UFPR.

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