História Agora

Um olhar sobre a ciência medieval (Parte 1)

Para Panofsky a relação entre a arquitetura gótica e o pensamento escolástico foi uma autêntica relação de causa e efeito, instaurada por uma difusão por contato direito de um hábito mental. A escolástica surgiria em finales do século 12, ao tempo dos primeiros êxitos góticos em Chartres e Soissons, e o auge de ambas seria verificado no reinado de São Luís, entre 1226 e 12708 . A escolástica em seu período clássico orientou-se na poesia, num misticismo antirracional oriundo de Eckhart e mesmo assim a filosofia manteve-se agnóstica. A orientação das novas correntes de pensamento seria baseada no subjetismo estético, místico e epistemológico. Tanto o misticismo como o naturalismo “reenviam ao indivíduo as fontes da experiência sensível e psicológica”.

A isso o misticismo e o nominalismo concorrem para abolir as fronteiras existentes entre o finito e o infinito. Ao mesmo tempo em que essas novas correntes entravam em embates com a escolástica clássica no campo da arquitetura gótica surgem variedades de estilos em decorrência das diferenças regionais e ideológicas. O subjetivismo também influenciaria o gótico tardio, na interpretação na perspectiva do espaço que aparece em Giotto e em Duccio em meados do século 14. Os novos meios de percepção e concepção influiriam também na escultura e na arquitetura, dando a obras de arte um caráter mais pictórico.

O espírito empirista e particularista do nominalismo influiria na paisagem e nos interiores. A escolástica iniciada pelos beneditinos foi promovida e propagada pelos dominicanos e franciscanos, algo que possibilitou a expansão e sucesso do modelo gótico. Se na arte românica foram as abadias beneditinas seu maior sucesso, no gótico foram as catedrais. Questões teórica como a relação entre corpo e alma, sobre o universo, influenciaram mais profundamente das artes figurativas a arquitetura. O arquiteto transmitia aos escultores, vidraceiros, outros que também contribuíam na obra um projeto iconográfico que recebia estreita contribuição dos escolásticos. Os teóricos e artistas dos séculos 12 e 13 tinham o objetivo de reconciliar a razão e a fé, algo só feito através de um esquema de representação literário.

A aplicação da clarificação nas artes exigiu o sacrifício da ordem natural da apresentação a uma simetria artificial. Este princípio se imporia a todo indivíduo que ingressasse na vida intelectual, convertendo-se em um verdadeiro hábito mental. Os agentes da fé não hesitaram em aplicar métodos racionais, inserido uma certa imaginação para torna-los mais clara, apelando cada vez mais aos sentidos, concernindo indiretamente a literatura filosófica e teológica. Esta preocupação atinge todas as artes. Nas artes visuais isto pode ser verificado na divisão estrita e exata do espaço, resultando na clarificação pela clarificação no contexto narrativo, nas artes figurativas e nos contextos funcionais na arquitetura. Na pintura pode-se notar isso na clarificação in vitro. No gótico clássico há um novo interesse pelo realismo e pela comunidade. Foi na arquitetura que o princípio de clarificação teve mais sucesso. O gótico clássico será dominado pelo princípio de transparência. A catedral, neste ponto, se aproximava a uma solução final e perfeita, encarnando a totalidade do saber cristão, moral, teológico e histórico.

O gótico tardio, entretanto, estimula transições mais fluídas e interpretações. A evolução da arte gótica foi coerente, mas não contínua. Foi desenvolvido duas linhas diferentes para construção de catedrais. A de Saint-Denis, estritamente longitudinal, com apenas duas torres na fachada e um cruzamento muito reduzido da nave maior com a nave menor. Outra foi a retomada da ideia germânica de um grupo polinomial, com um cruzamento tripartido e numerosas torres. A solução final para a estrutura das naves foi a adoção de abóbodas e pilares uniformes e articulados. No período tardio foi exatamente o princípio de cordantia que regeria o gótico clássico, como também na escolástica, que começara a unir autoridades contraditórias a partir de sua confrontação em novas coleções. Partindo deste ponto que se iniciou o uso do método de argumentação utilizado nos escritos escolásticos. O estilo arquitetônico que viria a ser denominado gótico anos depois foi um estilo com enfática verticalidade. Ele se caracterizou pela renovação das técnicas de construção anteriormente usadas na construção de edifícios românicos.

Dessa forma uma série de elementos originais foram introduzidos. Podemos destacar: a abóbada sustentada por uma cruzaria ogival; utilização do arco quebrado ao invés do arco de volta perfeita; o emprego do arcobotante e de contrafortes. Na construção das catedrais góticas a abóbada de cruzaria é constituída pelo cruzamento de duas abóbadas de berço. As estruturas que suportam o peso da abóbada se intersectam em forma de X, sendo chamado de chave da abóbada. É importante ressaltar que na arte gótica arquitetura e escultura se fundem num todo harmonioso. O uso da abóbada tem grandes vantagens, sendo mais sólida, elástica e também mais leve, isso porque o peso da estrutura converge sobre os quatros pontos de apoio. Esses quatro pilares são aproximados um dos outros, transformando assim os arcos de volta perfeita (semicirculares), em arcos ogivais. O peso que a verticalidade exercia também nas laterais do edifício foi neutralizado pelos arquitetos medievais pelo uso de arcobotantes, funcionando como estruturas laterais de sustentação da abóbada, descarregando a pressão exercida em contrafortes.

O peso, assim, é descarregado gradualmente, do interior para o exterior, possibilitando a ascensão do edifício a alturas vertiginosas, provocando uma sensação de distância evocativa da transcendência celeste. O interior da catedral é em forma de cruz latina. Dessa forma a parte longitudinal é dividida geralmente em três naves. No interior do transepto há a presença de monumentais fachadas, ladeadas por torres, enriquecidas com grandes portais. As naves laterais, no coro, prolongam-se para além do transepto, formando um vasto corredor. Essa grandiosidade do coro é frequentemente acentuada por uma série de capelas. Os arquitetos medievais separavam as naves laterais da nave principal por uma série de arcos ogivais, sustentados por finos pilares próximos um do outro, elemento novo inserido pela arquitetura gótica. Anteriormente o espaço delimitado pelos quatro pilares e pela abóbada de cruzaria era normalmente quadrado, já nas catedrais góticas este espaço foi dividido em dois tramos retangulares, assim o número de pilares é aumentado, reduzindo assim o espaço entre elas. Dessa forma cada pilar deve suportar uma pressão menor e possibilita também a construção dos arcobotantes e dos contrafortes. As paredes do interior do edifício foram substituídas por uma série de arcadas e grandes janelas. Na zona alta da igreja e em toda capela-mor abrem-se grandes janelas de lancetas.

Os vitrais figurativos, que seriam uma das características mais marcantes do gótico, têm a dupla função de fornecer luminosidade a catedral, como também transmitir ao fiel a história das Escrituras. Vale ressaltar que o exterior do edifício também tendia a verticalidade, provocadas por uma série de aberturas, portais, janelas, rosáceas, arcos e estátuas. As torres construídas em ambos os lados da fachada são elementos essenciais para sublinhar o lançamento vertical. Nesta mesma fachada outra característica do estilo gótico foi a construção de uma rosácea, que contribuía para a luminosidade e aligeira a espessura da parede.

REFERÊNCIAS

BAXANDALL, Michael. O Olhar Renascente: Pintura e Experiências Social na Itália da Renascença. Trad. ALMEIDA, Maria Cecília Preto R. Editoria Paz e Terra. 1991.

DUBY, Georges. O tempo das catedrais: a arte e a sociedade, 980-1420. Editora Estampa, Lisboa. 1979

GOZZOLI, Maria Cristina. Como reconhecer a arte gótica. Edições 70. 1978 PANOFSKY, Erwin. Arquitectura gotica y pensamiento escolastico. Coleção Genealogia del poder. Editora La Piqueta, Madrid. 1986.

VIEIRA, Rivadávia Padilha. Da imago ao retrato moderno: o debate sobre os usos funções da imagem no medievo e a definição do gênero retratístico moderno. Revista Historiador Especial, Nº 01, Ano 03. 2010, Pág. 135-154. Disponível em: http://www.historialivre.com/revistahistoriador. Acesso em 17 de julho de 2017.

Gabriel Rodrigues

Estudante do curso de História - Memória e Imagem da UFPR.

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