História Agora

Os estudos vikings no Brasil. Entrevista com Dr. Johnni Langer, professor da UFPB

Hoje inauguramos a seção Entrevistas do site com o professor Dr. Johnni Langer, do Departamento de Ciências da Religião da UFPB. Desde já, agradecemos ao professor por ter aceitado nosso convite.

Johnni Langer desenvolveu grande parte de sua formação acadêmica na Universidade Federal do Paraná. Graduou-se em História no ano de 1990, concluiu seu mestrado em 1996 e o doutorado no ano de 2001. Durante os anos de 2006 e 2007, Langer realizou estágio de pós-doutorado em História Medieval na USP. Atualmente, dedica-se ao estudo da História e Cultura da Escandinávia Medieval, com ênfase na Era Viking.

 

Ao final da entrevista, você encontrará alguns trabalhos do professor Johnni Langer que poderão ser acessados online. Confira!

 

História Agora – Professor Johnni Langer, poderia comentar um pouco sobre como surgiu seu interesse em desenvolver estudos sobre história da Arqueologia Brasileira durante sua formação acadêmica (graduação, mestrado e doutorado) e, posteriormente, sobre os Vikings e à Escandinávia Medieval?

Johnni Langer:  O interesse por Arqueologia começou na graduação, quando realizei estágio no CEPA-UFPR. O mestrado e doutorado foram consequência de um maior interesse pela história da ciência e do imaginário. Em 1997 fui ao Rio de Janeiro, buscando documentação para minha tese de doutorado e me deparei com uma grande quantidade de manuscritos referentes ao Brasil Imperial. O objetivo principal era estudar as teorias que tentavam demonstrar uma suposta origem “civilizada” de nossa jovem nação. Um dos grandes paradigmas destes arqueólogos pioneiros foi tentar identificar traços do Velho Mundo nas Américas. Ao conhecer melhor as fontes, percebi que uma faceta destas investigações ainda era desconhecida pela historiografia: a ideia de que nórdicos haviam aportado no Brasil antes de Cabral. Com o final de minha tese, em 2000, aprofundei a pesquisa sobre a construção da imagem oitocentista sobre os vikings. Publiquei vários estudos sobre o imaginário artístico e acabei recuando cada vez mais meu recorte histórico, chegando ao medievo. Com o tempo me transformei em escandinavista. Fazem muitos anos que pesquiso sobre temas relacionados com a mitologia e religiosidade nórdica. Enquanto historiador, buscava compreender o papel que os nórdicos exerceram em nosso imaginário arqueológico. Como medievalista, a busca destes vikings muda de contexto, mas não de sentido: o próprio valor de uma cultura humana em qualquer época é o motor que impulsiona o pesquisador. Não há fronteiras para a História. E a paixão é o âmago de qualquer pesquisa.

 

HA – Com relação ao estudo sobre os Vikings e à Escandinávia Medieval, como esse campo de pesquisa se desenvolveu no Brasil? Quais foram as primeiras iniciativas e como é o cenário atual?

JL: De um ponto de vista historiográfico, os estudos nórdicos tiveram início na década de 1830, com a consolidação do IHGB e de seu periódico, veiculando diversas traduções de escandinavistas e de artigos de arqueólogos brasileiros, todos reiterando a equivocada concepção de que os escandinavos medievais estiveram no Brasil pré-cabralino. Posteriormente, com a falência desta teoria, os estudos nórdicos medievais ficaram esquecidos e marginalizados. Foi somente com uma maior consolidação da Medievística no Brasil, após os anos 1990, que uma nova geração de historiadores (ou mesmo pesquisadores consagrados, como Ciro Flamarion Cardoso), iniciaram uma série de publicações envolvendo a Escandinávia Medieval. A criação de grupos de pesquisa com algum tipo de vínculo ao tema – a exemplo do grupo Brathair de Estudos Celtas e Germânicos em 1999 e do Núcleo de Estudos Vikings e Escandinavos em 2010 – concederam mais fôlego ao desenvolvimento da área em nosso país. A quantidade de publicações (artigos, resenhas, livros, periódicos) aumentou consideravelmente, além da realização de eventos e atividades relacionadas diretamente com as mais variadas temáticas da Escandinavística. Novos grupos de pesquisas estão surgindo pelo país mais recentemente, demonstrando uma maior aceitação acadêmica em torno do assunto.

 

HA – Em sua visão, quais são as maiores dificuldades enfrentadas por um estudante de História que pretende estudar/pesquisar a Era Viking no Brasil? Além disso, quais conselhos você dá para quem quer se aventurar nessa área?

JL: Com certeza a grande dificuldade é a falta de incentivo e a formação de professores orientadores. No momento que algum docente universitário aceita uma orientação formal a nível de graduação, muitas perspectivas se abrem ao estudante iniciante. Em segundo lugar, temos a carência de bibliografia especializada. Por certo o panorama de publicações atualmente é bem melhor do que há vinte anos atrás, mas ele ainda precisa melhorar muito, especialmente a tradução de fontes primárias e acesso a obras estrangeiras. As bibliotecas universitária são totalmente carentes de títulos da área, especialmente em outras línguas. O conselho básico é manter a perseverança e a iniciar intercâmbio com os outros pesquisadores do país e seus grupos de pesquisa. Também a participação em eventos dedicados à Medievística podem auxiliar o jovem iniciante em sua trajetória. Um pesquisador isolado nas investigações escandinavas em nosso país vai ter muitas dificuldades, bem ao contrário do que se estiver inserido em rede de contatos.

 

HA – Durante os anos de 2006 e 2007 você realizou um estágio de pós-doutorado em História Medieval na USP, sob supervisão do renomado medievalista brasileiro Hilário Franco Júnior. Poderia falar um pouco sobre como foi essa experiência, o tema de sua pesquisa e os frutos gerados?

JL: Foi um período de intensas atividades. Tive a oportunidade de aprender e dialogar muito com o professor Hilário, que é uma autoridade em imaginário e mitologia medieval, sempre muito sintonizado com a historiografia francesa. Durante esse estágio, também tive a oportunidade de interagir com medievalistas como Jean Claude-Schmitt, que participaram de atividades de co-supervisão junto ao grupo do professor Hilário, além do contato com outros pesquisadores do Programa de Pós Graduação. A biblioteca do setor de História da USP é a que possui o melhor acervo de temas medievais do Brasil, além de uma excepcional coleção de periódicos de estudos históricos em diversas línguas. Quanto ao meu tema de pesquisa, foi relacionado ao mito do dragão na Escandinávia Medieval, em suas diversas manifestações literárias, iconográficas e arqueológicas. Grande parte de meu livro publicado em 2015, Na trilha dos vikings: estudos de religiosidade nórdica, foi composto pelos resultados desta investigação.

 

HA – Atualmente, qual pesquisa você tem desenvolvido?

JL: Nos últimos três anos tenho me dedicado ao estudo das mitologias celestes nórdicas e da Etnoastronomia – que possui muitos poucos acadêmicos envolvidos. É uma área que converge elementos das ciências humanas com as exatas e é necessário um razoável conhecimento interdisciplinar. É algo muito desafiador e com resultados excepcionais, mas também possui certas limitações, como o alcance e o debate dos resultados com os colegas e a academia em geral. Meu mais recente artigo (ainda no prelo para publicação) trata das conexões entre mitos celestes do deus Thor com outras áreas culturais e religiosas da Europa, como Báltico e mundo eslavo. Nossa hipótese é que alguns mitos e ritos envolvendo o deus Thor estiveram associados à estrela Polaris, à constelação da Ursa Maior, à uma noção cosmológica de prego cósmico e ao simbolismo da suástica enquanto rotação estelar. A Etnoastronomia Nórdica é um campo ainda repleto de fontes não exploradas, abordagens e problemáticas de investigação, então creio que ainda ficarei nele por algum tempo. Além disso, venho publicando mais recentemente algumas sistematizações e artigos teórico-metodológicos, tentando sanar algumas carências bibliográficas em língua portuguesa no campo da Escandinavística.

 

HA – Por fim, gostaria de agradecer imensamente ao professor por ter aceitado participar dessa entrevista, que inclusive é a primeira do site, e falar que suas contribuições acadêmicas são muito importantes para os estudantes de graduação, pois mostram que é possível desenvolver pesquisas de grande qualidade no Brasil sobre os Vikings, a mitologia nórdica e a Escandinávia Medieval.

JL: Agradeço muito o convite e a gentileza. Com certeza existe muito espaço na academia brasileira para os temas nórdicos e os novos pesquisadores serão muito bem vindos!

 

LIVROS

 

LANGER, Johnni; AYOUB, Munir Lutfe (Orgs.). Desvendando os vikings: estudos de cultura nórdica medieval. João Pessoa: Idéia, 2016.  (Disponível online)

LANGER, Johnni. Na trilha dos Vikings: estudos de religiosidade nórdica. João Pessoa: Editora da UFPB, 2015. (Disponível para compra através da editora: atendimento.editora.ufpb@gmail.com)

LANGER, Johnni. Fé Nórdica: Mito e Religião na Escandinávia Medieval. João Pessoa: Editora da UFPB, 2015. (Disponível para compra através da editora: atendimento.editora.ufpb@gmail.com)

LANGER, Johnni. Dicionário de Mitologia Nórdica: símbolos, mitos e ritos. São Paulo: Hedra, 2015. (Disponível para compra em: Editora Hedra)

 

ARTIGOS ONLINE

 

LANGER, Johnni. A Arqueologia da Religião Nórdica na Era Viking: perspectivas teóricas e metodológicas.

LANGER, Johnni. Constelações e mitos celestes na Era Viking: reflexões historiográficas e etnoastronômicas. 

LANGER, Johnni. A Religião Nórdica Antiga: conceitos e métodos de pesquisa. 

LANGER, Johnni. A morte de Odin? As representações do Ragnarök na arte das Ilhas Britânicas.

LANGER, Johnni. Pagãos e cristãos na Escandinávia da Era Viking: uma análise do episódio de conversão da Njáls saga.

 

Confira o currículo lattes do prof. Johnni Langer para ter acesso a todas as publicações. 

 

Conheça o NÚCLEO DE ESTUDOS VIKINGS E ESCANDINAVOS, que é liderado pelo prof. Langer.

Robson Bertasso

Acadêmico do curso de História da UFPR. Possui interesse em temas relacionados à História da Historiografia e à História das Ciências Sociais na França. contato@historiaagora.com.br

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