História Agora

Das culturas da Bacia Amazônica: a cerâmica marajoara e tapajó

Toda a cultura humana se expressa por formas de ideias, comportamentos e objetos, desenvolvendo procedimentos técnicos e formas de apresentação para a elaboração dos objetos necessários para a sua sobrevivência. Estes procedimentos técnicos estão intimamente ligados a elaboração de determinados objetos. Cada agrupamento humano desenvolve respostas próprias na utilização de certas técnicas que as diferenciam entre as outras, estes meios técnicos podem ser divididos entre: matéria prima, instrumentos e conhecimento tecnológico. O perfil de cada grupo étnico pode ser então determinado pelo estudo destes meios técnicos gerando uma estrutura caracterizada dos vestígios de elementos morfológicos e técnicos. De acordo com Amorim diferentemente da concepção de arte na cultura ocidental, a arte dos povos sem escrita seria confeccionada a partir de uma necessidade de grupo e individual. Assim sendo a arte pré-colombiana teria uma função social e utilitária além da artística. Cada sociedade indígena teria seu estilo próprio, revelado pela linguagem visual dos objetos. Em sua decoração estariam as regras sociais de cada grupo.

No papel de preservar os vestígios das sociedades que estiveram abrigadas na Amazônia, de vital importância a atuação da equipe de pesquisadores do Museu Emílio Goeldi, localizado na capital do estado do Pará, Belém. Abrigando obras tanto marajoaras quanto da cultura de Santarém, foco do trabalho aqui elaborado, destaca-se a manutenção da coleção de Frederico Barata, fonte para vários pesquisadores interessados pelo tema. A beleza estética dos objetos cerâmicos provenientes da arqueologia na região Amazônica, principalmente das regiões de Marajó e Santarém, são conhecidas em todo o mundo. As cerâmicas marajoara e de Santarém formam coleções ao redor do planeta. Os estudos destas permitiu caracterizar tecnologicamente os habitantes da ilha de Marajó, ocupada desde 900 a. C até os séculos XIII e XIV, e os da região da foz do rio Tapajós, habitada até o século XVII. Na análise de Helen Palmatary, esta considerou que provavelmente houve uma diferença cronológica entre os dois tipos de cerâmica, já que em 1616, período de ápice da cultura Santarém, os habitantes da ilha de Marajó estavam extintos. Irei procurar em um primeiro momento discorrer sobre as pesquisas na região. Em um segundo momento procuro analisar as cerâmicas marajoara e da cultura Santarém, para que assim na conclusão fazer uma comparação entre elas.

A ilha de Marajó foi a primeira área onde foram realizadas pesquisas arqueológicas sistemáticas na região Amazônica. De acordo com Guapindaia, o resultado destes estudos permitira a elaboração da primeira sequência cultural pré-histórica da Amazônia. O estudo das coleções históricas, muito advindas do final do século XIX e começo do século XX, contribuiu com elementos básicos para o início de uma pesquisa sistemática em áreas onde pouco ou nada se conhece. A pesquisa sobre a origem das culturas que se estabeleceram na região Amazônica contém ainda um vasto campo para estudo, pesquisas e especulações. A pesquisa arqueológica na Amazônia pode ser dividida em três fases distintas :

 Pioneira: sua característica principal está relacionada ao início das coleções sendo executada por um ponto de vista estilístico;

 Sistemática: iniciada em 1948, com os trabalhos de Meggers e Evans;

 Integrada: desenvolvida pelo grupo de pesquisa do Museu Emílio Goeldi em Belém do Pará, ligada ao Programa Nacional de Pesquisa Arqueológica.

Em seu trabalho publicado em 1987, Anna Roosevelt discorda das teorias explicativas propostas por Meggers e Stward para o desenvolvimento cultural das terras baixas na Bacia Amazônica, que classificam a região como um ambiente tropical chuvoso, pobre em recursos, uniforme sazonalmente, úmido e de solo altamente lixiviado, portanto não propício para o desenvolvimento de sociedades desenvolvidas. A descoberta de culturas complexas como a de Santarém e a de Marajó foi atribuída a invasão e distribuição de povos oriundos dos Andes. Para Roosevelt esta teoria é ineficiente pelo fato de que não leva em consideração que o ambiente amazônico não é uniforme, apresentando áreas de clima sazonal como em Santarém e Marajó. A cultura da ilha de Marajó: A ilha de Marajó, com uma área aproximada de 50 mil m², é arqueologicamente conhecida por conter grandes tesos, que ocorrem em sua porção centro-oriental. Os tesos são aterros artificiais construídos em campos inundáveis, elevando-se cerca de 3 a 20 centímetros acima da atual planície, tendo em média 7 metros de altura. Estes tesos tinham funções habitacionais, cerimoniais e funerárias, tendo surgido no século IV d. C e erguidos em estágios sucessivos até os séculos XIII e XIV. A maioria chega a ter entre 1 a 3 hectares, mas podem adquirir tamanhos maiores.

Roosevelt realizando um trabalho na região propôs que sobre os sítios maiores erguiam-se vilas de 1 a 5 mil habitantes, podendo chegar a 10 mil em áreas nas quais havia múltiplos tesos articulados entre si, tendo assim uma escala urbana de ocupação14. Sua estimativa para a população total da ilha seria entre 100 a 200 mil habitantes, com uma densidade demográfica de 5 a 10 habitantes por km²15 . Os tesos contêm cemitérios, onde se encontra cerâmica policrômica nas cores vermelho, preto e branco, ricamente decorada, com grafismo pintados ou incisos, além de apliques em alto relevo com representações de homens e animais16. As peças de maior dimensão são as urnas funerárias, contendo esqueletos bem preservados. A interpretação deste complexo mortuário ainda é incerta; não se sabe se havia distinção entre urnas funerárias da elite e do povo comum ou se esta prática de sepultamento estaria ligada a um culto dos antepassados. Segundo Guapindaia, o estudo de Palmatary na região permitiu na análise da cerâmica marajoara notar certos traços característicos. A arte de Marajó era excelente nas decorações de superfície, em pinturas e incisões tendo formas geométricas complexas e suas representações antropomorfas eram altamente estilizadas. A ocupação de Marajó foi realizada por diversos grupos indígenas, tendo assim a partir de uma estratificação arqueológica, cinco fases ceramistas para a Ilha segundo Mário de Simões19:

1. Ananatuba (980 a 200 a. C);

2. Mangueiras (contemporânea a primeira em seu último terço de duração);

3. Formiga (100 a 400 d. C);

4. Marajoara (400 ao século XII d. C)

5. Aruã (séculos XIII e XIV d. C) A fase Marajoara ficou caracterizada pela ocupação de uma área circular em torno do Lago Arari, no Marajó, notabilizando-se pelo apogeu da arte marajoara, marcada pela exuberância e variedade da decoração, utilizando como já foi dito as cores vermelhas e pretas sobre um englobo branco.

A cerâmica marajoara: As urnas funerárias podem ser consideradas a característica mais marcante desta fase. Como já mencionado eram enterradas nos tesos (também chamados de mounds), uns sobre os outras e tendo também os ossos eram pintados de vermelho, sendo encontrados também dentro das urnas areia, cinzas e fragmentos de cerâmica. Outro traço da Fase Marajoara era a presença de esqueletos com deformações cranianas. As decorações usadas nas urnas eram feitas por técnicas de incisão (gravado) e excisão (relevo), conhecida como técnica do champlevé.

A técnica consiste em “”decalcar um desenho sobre uma superfície lisa e escavar depois o contorno, em certa profundidade, obtendo assim uma gravura em relevo”. Haviam urnas com modelagens nos dois lados ou só em um lado, representando figuras de animal ou de face humana. Além de urnas são encontrados também nos tesos pequenos vasos, quase sempre com forma arredondada, que provavelmente eram usados em oferendas nas cerimônias fúnebres. Junto as urnas, na cerâmica marajoara também há um foco de produção de tangas, conhecidas também como “tapa-sexos”, sendo que sua verdadeira denominação seria Babal. As tangas apresentam forma triangular, côncavas, com furos nas extremidades por onde passavam os cordões para serem ajustadas ao corpo feminino.

Usadas tanto em cerimônias como vestimenta, apresentam formato anatômico e diversos tamanhos, levando a crer que eram feitas sob medida. As tangas mais simples, com cor vermelha, seriam usadas por mulheres casadas ou mais velhas, enquanto as mulheres jovens solteiras usavam tangas decoradas, provavelmente em rituais de puberdade. Dando um enfoque maior nas urnas, a decoração mais elaborada demonstrava que o morto ocupava um lugar de destaque dentro da sociedade.

Além de representação de animais, ou de forma híbrida homem e animal, as mais importantes são as antropomorfas com traços femininos. De acordo com Lilian Bayma de Amorim independente do sexo do indivíduo resguardado dentro da urna, a decoração encontrada sempre tem referente ao sexo feminino. No processo funerário o povo Marajoara descarnificava os corpos. Somente os ossos, como já dito pintados de vermelho e limpos, eram depositados na urna, pois acreditavam que os ossos constituíam o depósito da alma e as urnas seriam o meio de para a passagem a uma outra vida. Juntos aos ossos são encontrados objetos de uso pessoal como bancos, tangas, pingentes e colares. Outra forma de cerâmica desenvolvida pela sociedade marajoara eram as estatuetas, caracterizadas por seus atributos femininos, como seios, triângulos ou retângulos pubianos e pela diversidade de decoração.

Alguns destas estatuetas apresentam forma fálica, isto é, atributos femininos e masculinos. Muitas delas podem ter sido usadas como instrumento musical como maracás, provavelmente em rituais, pois são ocas e possuem pedrinhas em seu interior produzindo sons. Às imagens portáveis eram atribuídas funções de veículo para a encarnação de espíritos nas cerimônias. A postura quase sempre acocorada, sugere uma posição de parto das índias. Vários outros objetos eram usados durante as cerimônias funerárias ou ritos de passagem. Pratos, tigelas e vasos tem seu uso relacionado a preparação de alimentos. A grande presença destes objetos pode levar a crer que as festas reuniam um grande número de pessoas. Outro objeto usado nas festas eram os inaladores, relacionados ao consumo de tabaco e substâncias alucinógenas . A característica mais marcante na cerâmica marajoara é a técnica de decoração e também os processos utilizados pelos oleiros, pois a cerâmica depende da qualidade e processo de queima da argila.

A cultura Santarém: Ao contrário da Ilha de Marajó, a região de Santarém só foi alvo de um estudo aprofundado a partir de 1987, com as pesquisas de Roosevelt37 . A cultura Santarém ou Tapajó se estende além da foz do Tapajós, ocupando até o alto do curso do rio. Santarém seria a principal aldeia tapajó38 . Estes índios teriam se espalhado também pelas serras no entorno do rio39 . Acredita-se que em um primeiro momento os índios tapajós tenham dominado o baixo rio Tapajós e que depois tenham se estendido, principalmente pela margem direita para o alto rio, em uma extensão de mais de 300 quilômetros, atingindo Itaituba40. Embora inseridos em uma área considerada antropologicamente como tupi, os Tapajós não falavam esta língua.

A cerâmica Santarém: Entre 1923 e 1926 foram descobertos 65 sítios arqueológicos na cidade de Santarém, na região de Alter do Chão e em Arapixuna por Curt Nimuendajú. A maioria das evidências arqueológicas disponíveis hoje foram retiradas na área do bairro de Aldeia em Santarém. Os sítios arqueológicos foram divididos em dois tipos pela pesquisadora Helen Palmatory: os de terra preta e os sambaquis. Nimuendajú constatou em suas pesquisas que na área de Santarém também havia a presença de outras tribos que produziram suas próprias cerâmicas. Uma destas tradições se assemelhava com a cerâmica tapajó, ficando conhecida como Konduri. Este fato leva a supor que havia algum tipo de interação entre elas.

Entre as semelhanças entre as cerâmicas Konduri e Tapajó nota-se de acordo com Guapindaia

“[…] o predomínio de adornos antropomorfos e zoomorfos servindo como alça ou simples decoração; o uso de cauixi como aditivo; a confecção de vasilhames com borda dupla; a utilização de bases anulares e trípodes; os motivos cabeça dupla; os tipos de olhos; a presença de ídolos de barro; a ausência de urnas funerárias, provavelmente como resultado da dissolução dos ossos em bebidas; e a presença de marcas de esteiras na cerâmica”.

Quanto as diferenças enquanto na cerâmica tapajó havia a utilização moderada do cauixi como aditivo, como também de incisões e adornos nas alças, fixação de adornos e alças através de encaixes, utilização abundante de cariátides e de incisões curvas e retas na decoração dos vasos, presença de bordas oca e pinturas em diversas cores, com difícil remoção. Em relação a cerâmica Konduri suas especifidades são: utilização abundante do cauixi como aditivo e também de apenas incisões retas nas decorações dos vasos, ausência de bordas ocas, raros vestígios de utilização da cor vermelha de fácil remoção e ausência de cariátides.

Os índios tapajós eram especialistas em artefatos modelados, utilizando de abundantes reproduções naturalistas antropomorfas e zoomorfas. A arte tapajó é tão genuína pela sua estilização, sendo facilmente identificável. Porém como aponta Guapindaia o desenho Tapajó apresenta certas similitudes com a cerâmica marajoara e também outros tipos de cerâmica. Assim Palmatory dividiu as características estilísticas em fatores não-correlacionados e fatores correlacionados.

Entre os fatores não-correlacionados estão as representações de jacarés, onças, macacos, pássaros e cotias, puramente tapajós. Nos fatores correlacionados são: as formas batráquias, as cariátides, as formas compostas bem como ao formato dos olhos, as estatuetas, as alças, os vasos antropomorfos representando corcundas, as bordas incisas e ocas, os apitos, entre outros. Estas similitudes podem ser justificadas pelas migrações, seja por guerras ou comércio, como também pelas possíveis conexões através do sistema fluvial. Elementos permitem supor que os Tapajós eram compostos por diferentes grupos étnicos. Para Frederico Barata o aspecto mais marcante da cerâmica tapajó seriam os vasos de cariátides e de gargalo. Mesmo com formas altamente estilizadas também havia cerâmica sem decoração, que compõe a maior parte material.

Nas coleções formadas não presença deste tipo de cerâmica pelo fato de não possuírem beleza estética, não atraindo a atenção dos colecionadores. Os vasos de cariátides são constituídos por três partes distintas, modeladas separadamente e depois unidas. Estas partes são:

“a inferior, que quase sempre é representada em forma de carretel; a superior, que têm a forma de uma cuia ou bacia sendo bem maior que a primeira; e a terceira são as cariátides antropomorfas que fazem a ligação entre as duas primeiras.”

A parte inferior ou suporte, é sempre decorada com desenhos geométricos, como também a parte superior. As cariátides são sempre três figuras antropomórficas femininas ou sem sexo definido. Nestas representações o corpo não é representado, a cabeça é bem grande, enquanto os olhos, bocas e orelhas são feitos com perfeição. Os membros inferiores quase não existem e os membros superiores são representados com as mãos cobrindo os olhos, com as mãos tapando a boca, com as mãos esticadas para baixo repousando sobre as pernas ou com apenas uma mão cobrindo um olho e a outra tapando a boca. A parte superior foi designada como bacia por Barata, onde observou que pelo lado externo existem figuras antropo-zoomorfas. Estas figuras apresentam-se em número de quatro, mas existem também vasos com cinco. Em relação aos vasos de gargalo, Barata os dividiu em dois segmentos. O primeiro tem a forma de uma lâmpada votiva. Esta forma é sugerida pelas duas asas em forma de jacaré ou de aves. O corpo do vaso não contém decorações, enquanto sua base tem a forma de um prato

invertido, possuindo decorações por incisões ou em baixo relevo. Em alguns vasos a base é caracterizada por ter a forma de um animal, por exemplo uma tartaruga. No segundo tipo de vaso o corpo é representado por animais como a onça ou tartaruga. Em alguns casos a onça é representada comendo outro animal. As figuras são muito realistas. Os vasos de gargalo por serem muito parecidos foi considerado serem feitos em moldes, mas a unidade e técnica empregada em cada um deles faz deles únicos. Os ornamentos geográficos, com pequenas alterações, aparecem tanto nos vasos de cariátides como nos de gargalo, garantindo assim uma unidade cultural.

Os altos relevos são altamente estilizados e os feitos por incisão são altamente geométricos. É nos motivos modelados que se encontra a representação da maior parte dos animais, como o jacaré, a cotia, o macaco, o morcego, o cachorro-do-mato e várias aves. Nas representações geométricas só se encontrou representações de rã, de cobra e de coruja. A unidade artística-cultural tapajó representada na arte decorativa estava subordinada a regras culturais. Através destes mecanismos que foram escolhidos os motivos decorativos dentro do grupo. Já que esta escolha é realizada por um consenso grupal, é de se esperar uma unidade estilística na cerâmica Tapajó. Em 1961 Evans e Meggers reuniram traços característicos dos 22 complexos cerâmicos dentro da região Amazônica separando-os em quatro tradições: Hachurada-zonada, Borda Incisa, Policroma e Incisa Ponteada.

A cultura Santarém foi filiada à tradição Incisa Ponteada, considerada o apogeu desta. Seus traços marcantes são a incisão, o ponteado e a modelagem em vários processos. Os adornos são muito variados incluindo formas antropomorfas, geométricas e zoomorfas. Esta tradição se estendia pelas bacias do Amazonas e Orinoco. Além da cultura Santarém, estão presentes também na tradição Incisa Ponteada os complexos Konduri e Arauraquim, como também as fases Mazagão, Itacoatiara e Mabaruma. Nos quatros estágios de evolução cultural formulados por Evans e Meggers a tradição Incisa Ponteada se adequaria a cultura agricultores de floresta tropical, existindo também os estágios de caçadores-coletores, agricultor incipiente e agricultor sub-andino ou de agricultura intensiva. A base de subsistência da tradição Incisa Ponteada era o plantio de mandioca e milho e suplementada pela caça e pesca.

O sistema de cultivo era o de coivara, implicando em uma relativa mobilidade e pequena densidade populacional com uma estratificação social elementar. O desenvolvimento tecnológico permitiu a produção de cerâmicas, plumagens, tecelagem, cestaria e indústria lítica, além de haver uma especialização do trabalho por sexo. Na cerâmica tapajó havia uma popularidade absoluta das estatuetas femininas e acentuada popularidade das estatuetas antropomorfas de base semilunar, seguindo então a classificação feita pela pesquisadora Conceição Corrêa na qual classifica as estatuetas da cultura Santarém antropomorfas, zoomorfas e inclassificadas. As estatuetas antropomorfas foram divididas quanto a sua base e forma, em uma primeira classificação leva-se em conta a base semilunar, unípede, circular e em pedestal.

O segundo critério tem relação a postura: ereta, acocorada e sentada. Em suas pesquisas na área Roosevelt elaborou uma sequência hipotética de assentamentos levando em consideração a análise tipológica das cerâmicas e comparações com sequências de outras regiões. Roosevelt delimitou sete fases: Santarém, Igarapé-Açu, Aldeia, Lago Grande, Taperinha, Ayaya e Rhome. O resultado de sua pesquisa estabelece o surgimento da cerâmica como mais antiga na Amazônia do que em outras regiões do norte da América do Sul. Nas coleções disponíveis como a de Frederico Barata, nota-se uma repetição sistemática de elementos essenciais. Estes são os vasos de cariátides, os vasos de gargalo, as vasilhas de gargalho, as estatuetas, os cachimbos, os apitos e as rodelas de fuso. Na construção de um perfil técnico cerâmico divide-se em elementos técnicos e morfológicos. Entre os elementos técnicos leva-se em consideração matérias primas: argilas, aditivos, pigmentos e resinas; instrumentos; técnicas de elaboração: preparação da matéria prima, técnicas de manufatura, técnicas de tratamento de superfície e de queimas. Em relação aos elementos morfológicos são compostos pelas formas, tipos de objetos e tamanhos.

Conclusão

Comparando a cerâmica marajoara e tapajó nota-se que cada uma tem sua particularidade. Por exemplo a técnica de impressão a dedo nas bordas das vasilhas, inexistente na cultura Marajó, era muito comum na cerâmica tapajó. Enquanto Hartt encontrou frequentemente objetos com barro branco e decorado, ele notou que não havia ornatos em linhas pintadas ou gravadas como as de Marajó. Embora diferentes em estilos, as cerâmicas marajoara e tapajó possuem formas altamente desenvolvidas, dominando uma técnica rara – as das bordas ocas. O alto grau de desenvolvimento que as duas culturas alcançaram é como já apontado uma grande contradição da tese de Evans e Meggers. Como Roosevelt apontou o desenvolvimento da cerâmica no norte da América do Sul se deu primeiro na Bacia Amazônica.

À época da chegada dos brancos em América a população marajoara estava a muito extinta, tendo apenas contato com as aldeias tapajós, hoje se tem muito mais informações deste povo. Ainda há muito campo de estudo em pesquisa destas culturas e muitas questões a serem respondidas. A iniciativa do governo federal com o Programa Nacional de Pesquisa Arqueológica permite que muitos pesquisadores interessados no tema possam realizar suas pesquisas.

Referências bibliográficas:

1. GUAPINDAIA, Vera Lúcia Calandrini. Fontes Históricas e arqueológicas sobre os Tapajó de Santarém: a coleção “Frederico Barata” do Museu Paraense Emílio Goeldi. 1993. 294 p. (Mestrado em História) – Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 1993.

2. Amorim, Lilian Bayma de. Cerâmica marajoara: a comunicação do silêncio. Belém: Museu Paraense Emílio Goeldi, 2010. Catálogo.

3. FAUSTO, Carlos. Os Índios antes do Brasil. Rios de Janeiro: Zahar, 2012. 4. Artesanato em Cerâmica: Aproveitando motivos arqueológicos. Disponível em: http://www.orm.com.br/tvliberal/revistas/npara/edicao4/artesan/arqueolo.htm. Último acesso em: 19 de maio de 2015

Gabriel Rodrigues

Estudante do curso de História - Memória e Imagem da UFPR.

Comentários no Facebook