Marc Bloch como objeto de estudo. Entrevista com o Dr. Jougi Guimarães Yamashita

O professor Jougi Guimarães Yamashita, doutor em História pela UFF, que desenvolveu várias pesquisas sobre o historiador francês Marc Bloch, é o nosso entrevistado de hoje. Agradecemos imensamente ao professor pela entrevista.

História Agora. Professor Jougi Guimarães, da graduação ao doutorado o senhor se dedicou a estudar vários aspectos da vida de Marc Bloch. Neste sentido, poderia falar um pouco sobre a sua trajetória e como ocorreu a evolução de suas pesquisas?

Jougi Guimarães YamashitaTive a honra de realizar a minha graduação na UERJ a partir de 2004. Ali, construí laços bastante significativos com a Teoria da História e a historiografia, através de grandes professores, como o saudoso professor Manoel Luiz Salgado Guimarães, que foi quem me apresentou o Marc Bloch, bem como a professora Lúcia Maria Paschoal Guimarães. Logo no terceiro período, iniciei uma bolsa de Iniciação Científica sob a orientação da professora Tania Maria Bessone, também coordenada pela professora Lúcia Bastos Pereira das Neves, sobre a história do livro e da cultura letrada no século XIX. Aprendi muito com elas, e acabei aprofundando a minha relação com a problemática da escrita da história. Nas pesquisas da bolsa de IC, conheci a figura de Francisco Alves, um bem-sucedido livreiro, diretamente responsável pela criação da Academia Brasileira de Letras: quando faleceu, deixou sua fortuna para a instituição. Essa entrega a uma “comunidade imaginada” (como diria Benedict Anderson) me remeteu ao caso de Bloch, que sempre nos impressiona no início de nossos estudos em História, e acabei optando por escrever a monografia sobre ele. No fim, abordei mais uma discussão conceitual sobre o nacionalismo utilizando o caso do Bloch como modelo.

No mestrado, que terminei em 2010, segui na UERJ, então sob orientação do professor Francisco Carlos Palomanes Martinho. Pesquisei especificamente o testemunho de guerra do Bloch, A estranha derrota, sobre o vexame francês de 1940. Foi um período de amadurecimento muito importante. Adquirir o fôlego para realizar a pesquisa (agora com fontes em francês), escrever a dissertação e dar aulas (passei em um concurso docente para o município do Rio de Janeiro) foi bastante intenso. Mas no fim, tudo deu certo.

Para o doutorado, que realizei na UFF sob orientação da professora Denise Rollemberg, a minha preocupação foi um pouco distinta. Ainda que seguisse associada ao Bloch, eu pretendi abordar mais a questão da memória construída em torno de seu nome: pensar um pouco os caminhos que levaram à sua elevação como uma “unanimidade” entre historiadores, não apenas pela qualidade de seus textos, mas também por conta de sua trajetória e do fim tão horrível quanto simbólico, fuzilado em 1944 por membros da Gestapo. Ao longo da pesquisa, fui tomando consciência da quantidade de “lugares de memória” dedicados a ele, e isso acabou se tornando um de meus capítulos. Procurei analisar essa dinâmica de como o seu nome foi crescendo em importância ao longo dos anos até o que Olivier Dumoulin chama de “o momento Bloch”, em meados da década de 1980, quando explodem nomes de rua, prêmios, escolas Marc Bloch, bem como de publicações de seus livros, em especial o Apologia da História. Procurei, também, analisar em que medida a própria visão que Marc Bloch tinha sobre si ajudou a construir essa identidade e essa memória que seria posteriormente a ele atribuída.

 

HA. Durante o seu doutorado, o professor realizou um estágio sanduíche na França onde teve a oportunidade de pesquisar em vários arquivos. Como foi essa experiência?

JGYA experiência da França foi incrível. Pela dimensão pessoal, de experimentar um pouco outra cultura, com outros valores (e outros problemas), mas também pela questão da pesquisa. Era fundamental que eu tivesse acesso a vários arquivos franceses. Pude pesquisar nos Archives Nationales, na biblioteca e no arquivo do Institut d’Histoire du Temps Present, na Bibliothèque Nationale, no Mémorial de la Shoah, entre outros. Os lugares eram diferentes, mas possuíam algo em comum: passada a dificuldade com a burocracia, o acesso aos arquivos era bastante facilitado e organizado. Em muitos desses arquivos eu já chegava com a caixa separada para mim. Coletei muita coisa porque na maioria dos lugares pude tirar fotos dos documentos. Ao fim, voltei ao Brasil com a certeza de que a tese havia tomado outros caminhos depois da pesquisa por lá.

 

HA. Em sua avaliação, qual a importância de se estudar a trajetória de historiadores de outros países no Brasil?

JGYAcredito que não podemos nos prender aos limites do nacional, e a minha trajetória acadêmica me impede de pensar diferente. Justificativas não faltam, na minha opinião: aquela ideia de “olhar o outro para entender a nós mesmos”, no sentido de relativizar um pouco a nossa produção endógena, além do desafio de ter contato com uma produção que ainda não foi publicada em português (será algum dia?) e todo o “frescor” de acompanhar o debate mais atualizado sobre um tema.

Por outro lado, acho que conhecemos bem a trajetória de historiadores europeus, em especial os franceses. Muitas vezes mais até do que os próprios brasileiros. Talvez o desafio esteja em nos abrirmos mais para outras tradições, em termos gerais. Se pecamos em dedicar um olhar mais aguçado a trajetórias intelectuais “de fora”, talvez devêssemos observar com mais carinho o nosso próprio continente, junto aos membros do nosso ofício, habitantes, por exemplo, da América Hispânica. Também, obviamente, conhecer mais sobre a intelectualidade do continente africano.

De um jeito ou de outro, também acredito ser evidente que escrevi uma tese sobre historiador francês “à brasileira”. Afinal, é do meu lugar social (já diria Michel de Certeau), de onde devo a formação, as referências e tudo o mais. Se escolhi o Marc Bloch foi porque de alguma forma ele faz sentido para mim e para a comunidade à qual pertenço.

 

HA. O senhor descreve em sua tese de doutorado um fato que, provavelmente, muitos desconhecem: a polêmica envolvendo Lucien Febvre e a remoção do nome Marc Bloch da capa da revista Annales no ano de 1941 em virtude do “Estatuto dos Judeus”. Poderia comentar um pouco sobre este episódio?

JGYApós a derrota de 1940, foram criados dois Estatutos dos Judeus na França (um em fins de 1940 e o outro em 1941), que instituíam algumas proibições para a comunidade judaica. Entre elas, a proibição de que judeus tivessem seus nomes ligados à publicação de impressos na zona ocupada. Para que a revista dos Annales pudesse seguir sendo publicada, o nome de Marc Bloch deveria ser retirado. Lucien Febvre acreditava que eles deviam respeitar essa condição em nome da continuidade da revista, enquanto Bloch se recusava a fazê-lo. Isso gerou uma grave crise entre os dois, que podemos acompanhar nas cartas trocadas entre eles e publicadas em três grandes volumes pela editora Fayard. Ao fim, Bloch concordou em remover seu nome, e passou a publicar artigos sob o pseudônimo de M. Fougères (referência a uma floresta onde lutou em batalha durante a Grande Guerra e à região onde Bloch possuía uma propriedade). Pouco depois, houve uma mudança no próprio nome da revista, que passou a se chamar Mélanges d’Histoire.

O que acho interessante nessa história é que essa atitude de Febvre acabou de certa maneira condenando a sua memória. Ele foi taxado de “colaboracionista” ou “covarde”. Pouco importava ele ter sido um dos primeiros intelectuais signatários de manifestos antifascistas na França desde meados da década de 1930. No mesmo sentido, esse episódio ficou marcado como mais um que comprovaria toda a aura heroica conferida ao Bloch, como mais um dos signos de sua coragem.

 

HA. Embora seja lembrado, principalmente, por sua resistência ao nazismo, Marc Bloch participou ativamente das duas guerras mundiais que assolaram o século XX. Como foi a sua atuação nestes dois momentos e por que pouco se fala de sua participação na Primeira Guerra?

JGYMarc Bloch teve uma breve experiência militar antes da Grande Guerra. Por isso, começou o conflito como sargento. Sua trajetória foi análoga à de milhares de seus compatriotas: intensamente marcada por sangue, violência e morte. Muito curioso observar em seu diário como em alguns momentos ele perde a noção de tempo, e como torna-se gradativamente blasé a todo o horror que vivenciava. Ele relata um episódio que marca bem esses momentos: chegou a ser baleado na cabeça quando se levantou de uma trincheira para dar ordem de fogo aos seus comandados. Esperou alguns minutos, pois sabia que se não perdesse a consciência nos primeiros momentos a ferida não seria mortal. Só aí foi procurar ajuda.

É claro que dias assim alternavam-se com outros de extrema monotonia, e de trabalhos burocráticos como preencher papelada e resolver questões administrativas, algo que muito o incomodava.

Enquanto historiador curioso com a experiência humana, várias coisas chamaram a sua atenção, das quais destaco uma: a propagação de falsas notícias de guerra por parte do exército francês. Ele observou que elas possuíam uma determinada função ali no cotidiano das trincheiras, uma vez que ajudavam na manutenção da moral das tropas, e influenciavam decisões militares importantes. Chegou a publicar um pequeno – e brilhante – artigo sobre essa questão, e vemos no Apologia como essa abordagem em relação ao falso documento e ao falso testemunho o acompanhou ao longo de seus escritos.

Na Segunda Guerra ele se voluntariou (tinha direito à dispensa por conta da idade e de ter seis filhos), e atuou como capitão (gradação na qual terminou a Grande Guerra), controlando o abastecimento de combustível do exército francês. Esteve presente na retirada de Dunquerque e retornou à França já num contexto de derrota em 1940. Alguns anos depois (não se sabe ao certo se em 1942 ou 1943, as fontes divergem um pouco sobre essa informação) engajou-se na Resistência Francesa, no grupo Franc-Tireur, que atuava no sul do país. Em 1944, como sabemos, foi capturado pela Gestapo, torturado e fuzilado num contexto de retirada do exército alemão da França após o Dia D.

Fala-se muito da sua participação na Segunda Guerra, primeiramente porque nosso olhar do presente – penso aqui bastante sobre a indústria cultural e a produção de uma determinada memória histórica – costuma valorizar mais o segundo conflito. Mas no caso francês, a isso deve-se agregar a ideia de que era esse o momento “a ser resolvido”. Na Grande Guerra, a memória é a da nação engajada, combatente, unida. Na Segunda, há o trauma da Colaboração, a “Síndrome de Vichy”, segundo os termos de Henry Rousso.

Daí partimos para a particularidade da memória construída sobre Marc Bloch: a Segunda Guerra Mundial foi o fim de sua trajetória, e um fim que conferiu a ele toda essa aura do mártir patriota, e talvez isso ofusque um pouco a lembrança sobre a sua participação no primeiro conflito. Contra um jovem ainda em formação, ainda desconhecido e com uma função “comum” nas trincheiras, temos, na luta contra o nazismo, além da própria narrativa do combate à opressão e pela liberdade nacional, a ideia de alguém que optou pela luta. Dentro daquela perspectiva da “ilusão biográfica”, de que uma vida parece coerente quando relembrada, fica claro nas fontes como a Grande Guerra é mencionada muitas vezes para mostrar que o fervor nacionalista de Bloch “já estava lá”.

 

HA. Na primeira década do século XX, enquanto Marc Bloch (agrégé d’histoire et géographie em 1906) e Lucien Febvre (agrégé d’histoire et géographie em 1902) estavam iniciando suas carreiras docentes, um grande debate acerca da epistemologia da história ocorreu em várias instâncias do mundo universitário francês envolvendo Charles Seignobos, um dos mais eminentes historiadores da época, e François Simiand, representante da Escola Sociológica Francesa, capitaneada por Émile Durkheim. Anos depois, como todos sabem, Bloch e Febvre criam os Annales d’histoire économique et sociale. É possível indicar o que reverbera deste debate no projeto empreendido pelos dois historiadores em 1929?

JGYO empreendimento dos Annales certamente tirou muito de sua inspiração dessa polêmica do início do século. Como você mesmo mapeou, estavam iniciando suas carreiras quando o debate toma corpo. A crítica de Simiand – que costumamos resumir na defesa de que o historiador devia abandonar os três ídolos da história, a saber, o do político, o do indivíduo e o das origens – remete diretamente sobre alguns pressupostos centrais da Escola Metódica Francesa, da qual Seignobos era um dos maiores expoentes. No limite, não negava a existência de um “espírito” histórico, mas criticava a maneira pela qual a história era feita por essa corrente que então tomava conta da França. Aos olhos de Simiand, o apego aos tais ídolos feria justamente os pressupostos que conformariam a legitimidade do conhecimento histórico.

Com o empreendimento dos Annales, Bloch e Febvre acabaram por posicionarem-se no mesmo sentido. Lembremos que Bloch também criticou a obsessão pelas origens em vários artigos e em Apologia. A questão para os dois também envolvia a cientificidade da história, e quais seriam os preceitos que garantiriam o sucesso da empreitada. Isso envolvia, talvez, uma defesa da especificidade do conhecimento histórico tal qual Seignobos promoveu, porém levando em conta as fragilidades expostas por Simiand. Nesse ponto, muito do que costumamos defender como inovações da dupla são uma inserção dos dois nesse debate que se arrastava desde o início do século.

 

HA. Professor Jougi Guimarães, o que torna Marc Bloch um herói? Refiro-me tanto no sentido nacionalista quanto historiográfico.

JGY. A trajetória dele é bastante conveniente à construção de uma narrativa quase hagiográfica (e digo isso porque Febvre, em uma das homenagens prestadas ao colega, diz que ele teve uma “morte santa”): nascido judeu em meio à toda repercussão sobre o antissemitismo francês com o Caso Dreyfus, combatendo na Grande Guerra e ganhando medalhas de honra, voluntariando-se para o combate na Segunda Guerra, e sendo morto por não aceitar a derrota francesa nas condições em que ela aconteceu (motivo pelo qual entrou na luta clandestina). Soma-se a isso a projeção conquistada ao que chamamos de “movimento” dos Annales, especialmente após a sua morte, com diversas abordagens teóricas e metodológicas consideradas inovadoras no contexto francês e que acabaram garantindo uma posição hegemônica na historiografia de boa parte do século XX. Temos com esses elementos o herói perfeito, mas que emergiu publicamente enquanto tal somente em determinado momento. Sobre isso, escrevi uma tese inteira…

 

HA. Atualmente, qual pesquisa o professor tem desenvolvido?

JGYAtualmente sigo como professor da Rede Municipal de Educação do Rio de Janeiro e atuo como professor substituto de Teoria da História e História da América na UFRRJ. Sobra pouco tempo para a pesquisa, mas venho refletindo um pouco sobre toda essa questão do trauma e da violência política e como ela influencia a escrita e as reflexões de diversos intelectuais do século XX. Ainda me encontro em estágio incipiente nessa pesquisa, que começou analisando a trajetória do Saul Friedländer, ainda criança no contexto da Segunda Guerra e que foi escondido pelos pais numa escola católica próxima a Vichy. Os progenitores, tentando fugir, foram presos por soldados franceses e enviados a Auschwitz, onde foram mortos. Ele é um dos mais renomados especialistas sobre o nazismo e a Shoah, justamente o período histórico que mais afetou a sua trajetória. Isso certamente deixa marcas, que pretendo investigar.

 

HA. Por fim, gostaria de agradecer ao professor por ter aceito conceder esta entrevista e de parabenizá-lo pelo brilhante trabalho que desenvolve.

JGYEu é que agradeço pelo elogio e pela oportunidade.

Leia a tese do professor Jougi Guimarães Yamashita, intitulada As guerras de Marc Bloch: nacionalismo, memória e construção da subjetividade nos testemunhos de guerra. Clique aqui.

Robson Bertasso

Graduando em História pela UFPR. Tenho interesse em temas relacionados à História da Historiografia e à História das Ciências.

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