Provas de Liberdade: Uma odisseia atlântica na era da emancipação

Em 2014, a Editora Unicamp lançou no Brasil a obra Provas de Liberdade: Uma odisseia atlântica na era da emancipação, escrita por Rebecca J. Scott, professora da Universidade de Michigan, e Jean M. Hébrard, professor da EHESS.

A obra tem como tema principal a luta emancipatória de Rosalie, uma mulher negra oriunda da região de Senegâmbia, escravizada, vendida e transportada para a colônia caribenha de Saint-Domingue, atual Haiti, e de seus descendentes, que buscarão posteriormente, ao longo de suas trajetórias, conquistar o direito a uma vida com dignidade e, sobretudo, igualdade.

Sem dúvida, trata-se de uma abordagem historiográfica extremamente inovadora, que consegue captar, através da história desta família, elementos de compreensão geral sobre três grandes períodos que marcaram as principais lutas antirracistas na história ocidental do século XIX. Primeiramente, a Revolução Haitiana (1791-1804), quando Rosalie consegue a sua alforria e foge, juntamente com a sua filha, Elisabeth, para Cuba. Em seguida, a Revolução de 1848 na França, uma das mais libertárias do XIX, que Elisabeth, após uma série de circulações – sairá de Cuba nos anos seguintes para buscar uma nova vida em New Orleans, nos Estados Unidos, onde se casará com Jacques Tinchant e, após sofrer muitos preconceitos em virtude de sua cor, fugirá para o velho continente – assistirá, in loco, os seus desdobramentos que culminarão em uma infeliz ascensão conservadora e no golpe de Estado por Luís Bonaparte. Por fim, a Guerra Civil nos Estados Unidos, onde muitos membros da família Tinchant lutarão em defesa da igualdade de direitos entre os cidadãos.

Esta abordagem versa sobre grandes recortes temporais, que exigem um corpo documental extremamente rico para dar conta das problemáticas levantadas pelos autores. Desta maneira, qual o arcabouço teórico-metodológico que viabiliza esta pesquisa? No prólogo da obra, Rebecca J. Scott e Jean M. Hébrard (2014, p. 19) argumentam que “este livro é um experimento que pode ser caracterizado como de micro-história”. Pode parece estranho, a um primeiro, pois normalmente associamos esta abordagem a pequenas realizadas sociais e temporais. No entanto, os autores continuam: “ele se apoia na convicção de que o estudo de um local ou evento cuidadosamente escolhido, examinado bem de perto, pode revelar dinâmicas que não estão visíveis através das lentes mais familiares de região e nação. Nesse caso, seguimos uma cadeia interconectada de eventos definidos pelo itinerário de uma família. É claro, não há nada “micro” no mundo atlântico do século XIX, mas mesmo nesse quadro tão amplo, a análise mais profunda pode surgir da intensa atenção ao particular”.

A obra é extremamente fantástica. Embora eu não estude essas questões específicas em minha pesquisa, penso que Provas de Liberdade pode nos ensinar muitos meios de se compreender as dinâmicas complexas que envolvem as trajetórias familiares e o trabalho com biografias em História.

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Robson Bertasso

Graduando em História pela UFPR. Tenho interesse em temas relacionados à História da Historiografia e à História das Ciências.

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