Jean-François Champollion e a Pedra de Roseta

Ainda que não se trate de uma construção monumental, tal como as famosas pirâmides de Gizé, a chamada Pedra de Roseta atrai a atenção de diversos estudiosos e entusiastas da história do Egito Antigo desde que foi encontrada, mesmo não sendo uma peça “única” e estando fragmentada. Por que ela é tão importante e seu decifrador é tão referenciado?

A Pedra de Roseta foi encontrada por Pierre Bouchard em 15 de julho de 1799, no Fort Saint Julien, na cidade de El-Rashid, localizada no delta do rio Nilo, no Egito. Bouchard comandava os soldados que partiram na Expedição ao Egito liderada por Napoleão Bonaparte, iniciada em 1799, que teve como um de seus objetivos o de levar vários estudiosos ao país para que coletassem os dados que formariam a “Descrição do Egito”, isto é, uma série de apontamentos científicos sobre a geografia, arqueologia e até mesmo sobre a história natural do Egito desde a sua antiguidade.

Mesmo estando incompleta, a Pedra de Roseta é um monumento bastante importante por conta do que ela significou para os avanços dos estudos do Egito Antigo e, por conseguinte, da língua egípcia antiga.

Ela foi esculpida em um bloco de granodiorito, com a face polida, e mede atualmente 114 cm de altura, 72 cm de largura e 28 cm de espessura, contendo inscrições divididas em três blocos de texto: 14 linhas de escrita hieroglífica, 32 linhas de escrita demótica e 53 linhas de escrita grega. Seu peso foi calculado em aproximadamente 700 kg. Acredita-se que a parte superior da pedra era arredondada e, comparada a outras estelas ptolomaicas similares, teria esculpido nesta parte o disco solar alado de Hórus, portando as coroas do Alto e Baixo Egito.

Em seu estado original, a Pedra deveria ter entre 150 e 180 centímetros de altura, e provavelmente era colocada próxima a uma estátua do faraó Ptolomeu V Epifânio, formando um monumento proeminente no templo onde estavam expostas. O conteúdo do texto gravado na Pedra de Roseta corresponde a um decreto egípcio aprovado por um conselho de sacerdotes de Mênfis, com informações a respeito do reinado do faraó Ptolomeu V.

Saber o conteúdo desse texto e compreender o sistema de escrita egípcio foi o que moveu um verdadeiro “exército” de estudiosos pela Europa do século XIX.

 

Jean-François Champollion (1790-1832)

 

Jean-François Champollion nasceu em 23 de dezembro de 1790, na pequena cidade de Figeac, na França, e morreu em 4 de março de 1832, em Paris. Além de ter sido o responsável pela decifração da Pedra de Roseta em 1822, fato que permitiu a compreensão do sistema de escrita utilizado pelos antigos egípcios, Champollion atuou como professor de História por vários anos em Grenoble, iniciando sua carreira docente aos vinte anos de idade, e alcançou seu auge tornando-se titular de uma cadeira de Arqueologia no Collège de France.

Desde muito cedo, Jean-François Champollion direcionou seus estudos ao Egito Antigo, produzindo uma série de trabalhos sobre o assunto – mesmo antes de ter realizado a decifração da antiga escrita que o fez ter grande notoriedade nos âmbitos político e intelectual da França e da Europa do século XIX. Este fato, que ecoa até os dias de hoje, faz com que Champollion seja comumente reconhecido como o “pai da egiptologia”.

Mesmo sendo o principal responsável pela decifração da Pedra de Roseta, Jean-François Champollion não foi o único a se empenhar neste desafio.

Na época em que a Pedra foi encontrada, várias cópias das inscrições foram feitas e difundidas dentro dos vários círculos de estudiosos da Europa, chegando às mãos de muitos outros savants. Assim que essas cópias começaram a circular, os estudiosos passaram, então, a se esforçar para que as inscrições da Pedra de Roseta fossem decifradas. A decifração da escrita egípcia não geraria apenas reconhecimento científico, mas também político, tendo em vista que o Egito provocava grande fascínio na Europa desde muito tempo.

Quando os primeiros estudiosos começam a se debruçar sobre as cópias da Pedra de Roseta, Champollion ainda era muito jovem. Os principais autores de estudos especificamente sobre a Pedra de Roseta e a língua egípcia nesse momento foram o inglês Thomas Young (1773-1829), o francês Antoine Isaac Silvestre de Sacy (1758-1838) e o sueco Johan David Akerblad (1763-1819). Por ser mais jovem, Champollion pôde ter contato com esses trabalhos durante sua formação enquanto estudioso da cultura e língua egípcias.

Os primeiros a avançarem na decifração da Pedra de Roseta foram Sylvestre de Sacy e Johan Akerblad, pois conseguiram identificar os nomes em grego que constavam nas inscrições da Pedra de Roseta e isolaram seus equivalentes na escrita demótica logo em seguida. Porém, Akerblad acreditava que essa escrita era completamente fonética, ou seja, uma escrita que representa diretamente os sons da fala, e essa constatação o impediu de ir além em seus estudos, permanecendo, então, os hieróglifos enigmáticos.

Champollion sabia que para dar cabo a esta tarefa seria necessário comparar diversas inscrições que tivessem os mesmos hieróglifos. Desta maneira, ele obteve uma cópia das inscrições que provinham de um obelisco da região de Philae, onde estavam escritos os nomes de Ptolomeu e Cleópatra, tanto em escrita hieroglífica quanto em grego. Ele conseguiu isolar cada valor dos sinais que compunham os dois nomes e os comparou em seguida, fato que lhe foi bastante útil para a decifração da Pedra de Roseta, pois Champollion utilizaria a mesma técnica posteriormente.

Após terminar o trabalho de decifração, Jean-François Champollion tornou público os resultados do seu trabalho de decifração quando apresentou sua “Lettre à M. Dacier” na Academia de Inscrições e Belas-Letras da França, em 1822, e, após isso, deixou esse sistema de escrita ainda mais claro na obra “Précis du Systhème Hieroglyphique”, publicada em 1824.

Devido aos seus feitos, Champollion ganhou grande notoriedade na sociedade francesa. Para exemplificar: em 1826, o rei Charles X o nomeou como conservador do Museu do Louvre e em 1831, foi criada, por ordem do rei Louis-Philippe I, uma cadeira de Arqueologia direcionada especificamente a ele no Collège de France, uma das instituições de ensino e pesquisa mais prestigiadas na França.

Por problemas de saúde, Jean-François Champollion acabou falecendo precocemente, deixando parte de seu trabalho ainda por publicar. Postumamente, seu irmão, Jacques-Joseph Champollion, reuniu o material deixado por Champollion e publicou, em 1836, a “Grammaire Égyptienne: ou principes généraux de l’écriture sacrée égyptienne”, obra que serviria de base para muitos linguistas e estudiosos no futuro. Atualmente, Champollion é comumente aclamado como sendo o principal fundador da Egiptologia, graças à contribuição que seu trabalho deu a esse campo.

Quanto à Pedra de Roseta, ainda que tenha sido encontrada e decifrada pelos franceses, ela se encontra em posse dos britânicos desde 1801, quando o exército britânico derrotou os franceses e levou consigo grande parte dos artefatos que tinham sido recolhidos durante a Expedição francesa ao Egito. Ela permanece exposta no Museu Britânico desde 1802.

 

REFERÊNCIAS

 

ANDREWS, Carol. A Pedra de Roseta. Departamento de Antiguidades Egípcias. Publicações do Museu Britânico Ltda.

CHAMPOLLION, Jean-François. Introduction: Discours d’ouverture du cours d’archéologie au Collège de France. Grammaire Égyptienne: ou principes généraux de l’écriture sacrée égyptienne. Paris: Typ. de Firmin Didot Frères, 1836.

GADY, Eric. L’Égyptologie: une science française?. Egypte, Afrique & Orient, n.12, pp.41-48, fev 1999.

LACOUTURE, Jean. Champollion: Une vie de lumières. Paris: B. Grasset, 1988.

RAY, John. The Rosetta Stone: and the Rebith of Ancient Egypt. Profile books, 2014.

Jessica Cabral

Mestranda em História pela UFPR.

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