O que são Fontes Históricas?

Embora a historiografia desenvolvida no século XIX tenha sido constantemente combatida no decorrer do século XX, guardadas as devidas proporções, não há como discordar da célebre frase de Charles Seignobos:

 

Sem documento, não há história.

 

Porém, antes de aceitarmos ao pé da letra esta ideia, devemos fazer o seguinte questionamento: o que é, afinal, um documento histórico? Para responder esta questão, recuaremos no tempo com o intuito de compreender as transformações que a noção de documento histórico sofreu no decorrer dos séculos XIX e XX.

Atualmente, os termos “documento histórico” e “fonte histórica” são considerados sinônimos, entretanto, eles possuem origens distintas. Conforme aponta o historiador José D’assunção Barros (1), a expressão “documento histórico” surgiu no século XIX e estava diretamente atrelada aos arquivos documentais da época e à maneira como se concebia o conhecimento histórico. Para elucidarmos isso, tomemos como exemplo o caso francês. Um dos modelos historiográficos que predominavam na França do século XIX era pautado na narração de fatos. O historiador, para validar a sua narrativa sobre os eventos passados, recolhia os fatos dos documentos oficiais, armazenados nos arquivos históricos, e os organizavam em uma ordem sucessiva e cronológica. O documento histórico, neste momento, tinha um peso semelhante ao do documento jurídico em um processo, pois estava associado à ideia de prova e de comprovação. Desta maneira, ele era extremamente limitado, restringindo-se apenas a documentos escritos, verossímeis e oficiais.

Já no século XIX é possível observar algumas oposições a esta concepção de documento. Um exemplo clássico disso é o caso de Fustel de Coulanges, que pronunciava, em seus cursos na Faculdade de Estraburgo e na Sorbonne, que os documentos históricos poderiam ser bastante diversificados: desde “livros, constituições, moedas, inscrições, monumentos e, às vezes, simples lendas” (2).

Na medida em que a historiografia expande seus limites no decorrer do século XX, os historiadores ampliam, gradualmente, a noção de documento histórico. Destacam-se, neste sentido, os questionamentos feitos pelos sociólogos durkheimianos e pelos historiadores que publicavam tanto na Revue de Synthèse Historique, dirigida por Henri Berr, quanto na revista Annales d’histoire Économique et Sociale, dirigida por Marc Bloch e Lucien Febvre.

A partir deste momento, a história se transforma em uma ciência construída a partir de hipóteses e problemas, desnaturalizando o fato histórico e o concebendo como uma construção do historiador. Desta maneira, o documento deixa de ser visto como uma prova, no sentido jurídico do termo, e passa a ser entendido como um meio através do qual o historiador “reabre o passado e constrói os dados necessários, […] à prova de suas hipóteses, que responderiam aos problemas postos, ligados à sua experiência do presente” (3).

Assim, paulatinamente, passa-se a considerar como fonte histórica legítima qualquer vestígio que remeta a experiência humana no tempo. Documentos textuais (como crônicas, memórias, registros, cartas, obras literárias, processos criminais); cultura material (como cerâmicas, esculturas, monumentos, ruas de uma cidade, utensílios da vida cotidiana); fontes iconográficas (como fotografias, quadros, desenhos, filmes); testemunhos orais, entre outros. Não há limites, atualmente, para se definir algo como documento histórico, justamente por isso se prioriza, no meio acadêmico, a utilização do termo fonte, uma vez que ele dá sentido a questões mais amplas, que não são incorporadas pelo primeiro termo. Entretanto, trata-se apenas de uma questão de rótulo.

Por fim, voltemos à citação de Charles Seignobos apresentada no início do texto. Atualizada a noção de documento histórico, agora não mais entendida aos moldes de algumas vertentes do século XIX, argumentamos: sem documento, não há história!

NOTAS

1 BARROS, José D’assunção. Fontes Históricas: revisitando alguns aspectos primordiais para a Pesquisa Histórica. Mouseion, n. 12, mai-ago/2012, pp. 129–159.

2 COULANGES, Fustel. Fazer obra de historiador. In. HARTOG, François. O século XIX e a História: o caso Fustel de Coulanges. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2003, p. 338.

3 REIS, José Carlos. A Escola dos Annales: a inovação em história. São Paulo: Paz e Terra, 2000, p. 76.

Robson Bertasso

Graduando em História pela UFPR. Tenho interesse em temas relacionados à História da Historiografia e à História das Ciências.

Um comentário em “O que são Fontes Históricas?

  • 23 de julho de 2018 em 06:57
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    Decerteza sem documento nao historia por isso o historiador deve gostar da leituta
    amei a matria e vai me ajudar

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