Gustave Bloch: um latinista eminente

Marc Bloch é, sem dúvida, um dos historiadores mais conhecidos do século XX. Todo estudante de história em algum momento de sua trajetória já se deparou com suas obras, sejam elas relacionadas a temáticas metodológicas ou à história medieval. Entretanto, o que poucos sabem é que seu pai, Gustave Bloch, também foi um grande historiador.

Gustave Bloch nasceu em 21 de julho de 1848, na comuna francesa de Fegersheim, localizada no nordeste da França, próxima a grande cidade de Estrasburgo. Filho de Marc, um professor do ensino primário, e de Rose Rosalie, filha do rabino local, Gustave Bloch desenvolveu seus estudos primários na Escola de Estrasburgo, seus estudos secundários no Liceu de Estrasburgo e se tornou bacharel em letras pelo Liceu Bonaparte. Em 1868, ele foi aprovado em primeiro lugar para a Escola Normal Superior, uma das principais instituições de ensino da França, localizada em Paris. Lá, Gustave Bloch seria aluno e discípulo do eminente historiador Fustel de Coulanges, um dos responsáveis por lhe abrir as portas do mundo antigo, sobretudo de Roma. No ano de 1872, ao final de seus estudos superiores, em virtude das reformas educacionais impostas por Napoleão III durante o período do Segundo Império, que havia suprimido o concurso de agrégation d’histoire et géographie, Gustave Bloch presta o concurso de agrégation des letres e é aprovado em primeiro lugar. Para quem não está habituado com o termo, em síntese, o concurso de agrégation é a porta de entrada para quem quer se tornar professor tanto nos liceus quanto nas universidades francesas.

Sua primeira função como docente será a de chargé de cours de retórica no Liceu Besançon, em 1872 – para se ter uma noção, o curso de retórica é equivalente aos anos finais do Ensino Médio brasileiro. No ano seguinte, Gustave Bloch se torna membro da École de Rome, algo extremamente importante para suas pesquisas, tendo em vista que isso lhe permitia verificar in loco os materiais que o interessavam para estudar a história do Império Romano.

Não levou muito tempo para que seu trabalho fosse reconhecido. Em 1876 Bloch é convidado a assumir o posto de chargé de cours de antiguidades gregas e latinas na Faculdade de Letras de Lyon. Dois anos mais tarde, em 1878, Gustave se casa com Sarah Ebstein, filha de um comerciante de Lyon, com a qual terá dois filhos: Louis Bloch, nascido em fevereiro de 1879, e Marc Bloch, nascido em julho de 1886. Enquanto lecionava e galgava novas posições na hierarquia profissional docente, Gustave Bloch defende, em 1884, sua tese de doutorado em Letras, intitulada “As origens do Senado Romano”, e três anos mais tarde, em 1887, o latinista se torna maître de conferances da Escola Normal Superior.

É importante destacar que sua trajetória é um caso de grande sucesso, pois são poucas as pessoas que conseguem sair de uma região provinciana da França e ocupar os cargos mais altos na capital parisiense.

Neste período, Gustave Bloch escreve duas importantíssimas obras: “A Gália independente e a Gália romana” (1900), que era o segundo tomo da grande obra “História da França”, dirigida por Ernst Lavisse, e “A República Romana” (1900).

Assim como ressaltamos na biografia de Charles Seignobos, o final do século XIX marca um período de grande turbulência na vida política francesa, sobretudo em virtude do famoso “Caso Dreyfus”. Tal como outras personalidades do período, Gustave Bloch vai a público em defesa da reabertura do processo e assina o “Manifesto dos Intelectuais”.

Em 1904, o pai de Marc Bloch é admitido como Professor de História Romana na Faculdade de Letras de Paris (Sorbonne), onde permanecerá até a sua aposentadoria em 1920.

Evidentemente que o sucesso de Marc Bloch não pode ser explicado apenas em virtude de sua origem, mas o fato de ter sido filho de um grande historiador talvez forneça algumas pistas para compreendê-lo melhor.

 

Rara fotografia de uma conferência pronunciada por Gustave Bloch (à direita) na Faculdade de Letras de Paris (Sorbonne).

 

Principais obras disponíveis on-line

 

BLOCH, Gustave. La république romaine : les conflits politiques et sociaux. Paris: Flammarion, 1913.

BLOCH, Gustave.  L’empire romain : évolution et décadence. Paris: Flammarion, 1922.

BLOCH, Gustave. La Gaule Indépendante et la Gaule Romaine. Paris, 1900.

BLOCH, Gustave. Les origines du sénat romain : recherches sur la formation et la dissolution du sénat patricien, 1883. (Tese de Doutorado em Letras). 

 

Referência

 

Charle, Christophe. Bloch (Gustave) [note biographique]. Disponível em: https://goo.gl/AkzFET

Robson Bertasso

Graduando em História pela UFPR. Tenho interesse em temas relacionados à História da Historiografia e à História das Ciências.

Um comentário em “Gustave Bloch: um latinista eminente

  • 11 de março de 2018 em 09:30
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    Muito bom quando se escreve sobre a memória de profissionais comprometidos efetivamente em fazer história. Em um Brasil desgovernado e cheio de idolatrados com prazo de validade vencida. É prazeroso ler um artigo cheio de informações que dão folego em acreditarmos em uma Pai e filho acadêmicos que em períodos de turbulência escreveram sobre temas muitas das vezes desprezados pela contemporaneidade. Só de imaginar que o Pai de Marc Bloch prof. Gustave escreveu sobre o Senado Romano e se envolveu em colaborar para ajudar no caso Dreyfus” emociona aos que acreditam na vida com menos conflitos ideológicos. Ao término desta leitura me sinto parte de um mundo no qual historiadores ou melhor professores tem compromissos com a apuração do passado, sem preocupações com o modismo ideológico partidário do presente. Sucessos ao Mestre Acadêmico Prof. Robson por proporcionar numa manhã de domingo um conteúdo que trata da História como história.

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