Uma vida dedicada à História: Charles Seignobos (1854-1942)

Em um célebre artigo publicado em 1994, Antoine Prost criticava o fato de muitos estudantes de história atacarem a obra do eminente historiador Charles Seignobos (1854-1942), rotulando-a como “rudimentar”, “historicizante” e simpatizante de um realismo ingênuo sem lerem uma linha sequer de seus trabalhos.

Esta imagem foi sendo construída no decorrer do século XX, sobretudo por uma tradição vanguardista na historiografia francesa, que construiu sua inovação, dentre outros aspectos, a partir de um distanciamento da geração de historiadores da virada do século XIX para o XX. O que Antoine Prost defendia é que a figura de Charles Seignobos é interessantíssima e que merece, tal como consta no título de seu artigo, ser revisitada.

A trajetória intelectual de Charles Seignobos se assemelha a outras trajetórias que obtiveram sucesso no sistema de ensino francês. Nascido em 1854 na pequena cidade de Lamastre, localizada ao sul de Paris, Charles Seignobos era oriundo de uma família protestante com boas condições financeiras. Seu pai, Charles-André Seignobos, que teve um papel fundamental no início de sua carreira profissional, era um advogado que fez carreira política como deputado, defendendo os princípios republicanos, e sua mãe, Antoinette Isaline Dina Vacheresse, era filha de um médico. Esses fatores contribuíram para que o futuro historiador conseguisse partir de sua terra natal para Paris, onde seria aprovado, em 1874, para uma das principais instituições de ensino da França: a Escola Normal Superior.

Durante os anos na ENS, Charles Seignobos será aluno de grandes personalidades, tais como Fustel de Coulanges e Ernst Lavisse. Diferentemente do sistema de ensino brasileiro, que ao final da graduação concede um diploma ao aluno que lhe permite exercer a atividade docente, na França é necessário prestar dois concursos: a licence, que habilita o professor para as séries iniciais, e a agrégation, que habilita para o ensino secundário e para o ensino superior. Charles Seignobos foi aprovado nos dois concursos: na licence, em 1875, e na agrégation d’histoire et geographie, em 1877, ficando na primeira colocação. Sua excelente performance no concurso de agrégation lhe rendeu uma bolsa de estudos de dois anos (1877-1879) para estudar na Alemanha.

Em seu retorno à França, ao invés de ocupar um posto num liceu, como era de costume, Charles Seignobos foi nomeado diretamente maître de conférances na Universidade de Dijon, graças à intervenção de seu pai. Para quem não está habituado com a hierarquia do sistema de ensino francês, Gérard Noiriel a estabelece da seguinte maneira em seu artigo sobre o nascimento do ofício do historiador:

Maître de conférences (mestre de conferências)início de carreira

Chargé de cours (encarregado de cursos)

Professeur adjoint (professor adjunto)

Professeur (professor)titular de uma cadeira.

Antoine Prost relata em seu artigo que Charles Seignobos encontrou várias dificuldades nesta universidade, sobretudo pela falta de estrutura e pela péssima qualidade da biblioteca, que prejudicava suas pesquisas. Mesmo assim, em 1881 ele defende sua tese de doutorado em Letras, intitulada “O regime feudal em Bourgogne até 1630: estudo sobre a sociedade e as instituições de uma província francesa na Idade Média”. Para quem tiver interesse, sua tese está disponível para download no site da Biblioteca Nacional Francesa.

Em meio às críticas à Universidade de Dijon, Charles Seignobos renuncia ao seu posto em 1883 e retorna à capital francesa.

Seu primeiro posto fixo na Faculdade de Letras de Paris – onde permanecerá como professor até a sua aposentadoria – será o de maître de conférances de pedagogia (ciências históricas), no período entre 1890 a 1897. Paralelamente a isso, Charles Seignobos publica três grandes trabalhos: “História dos Povos do Oriente” (1890), “História Política da Europa Contemporânea (1897) e o famoso manual, escrito em parceria com Charles-Victor Langlois, “Introdução aos Estudos Históricos” (1897).

Charles Seignobos foi um historiador que jamais se negou a comentar e a se posicionar com relação aos eventos políticos de seu tempo. Neste período, por exemplo, uma grande polêmica envolvendo o exército havia levantado um debate extremamente acalorado na França: o chamado “caso Dreyfus”. Em poucas palavras, o capitão do exército Alfred Dreyfus foi acusado de traição por vender documentos secretos da França ao Império Alemão. A questão é que sua condenação foi realizada com o apoio de provas completamente questionáveis. Desta maneira, várias personalidades se organizaram no sentido de pedir a revisão de todo o processo. Nomes como Charles Seignobos, Émile Durkheim, François Simiand, Anatole France, Émile Zola, Gabriel Monod, entre outros, tiveram grande participação neste sentido. O processo foi reaberto e a França se dividiu entre os defensores do capitão Dreyfus, chamados de dreyfusards, e os contrários, chamados de anti-dreyfusards. O processo durou de 1894 a 1906 e terminou com a comprovação da inocência do militar.

Voltando à carreira acadêmica, este mesmo período marcou uma ascensão de Charles Seignobos. Em 1898 foi nomeado chargé d’un cours de História Moderna; em 1904 foi nomeado chargé d’un cours de História Geral; e no final deste mesmo ano foi nomeado professeur adjoint na Faculdade de Letras de Paris. Além disso, publicou em 1901 aquela que seria uma de suas principais obras: “O Método Histórico Aplicado às Ciências Sociais”.

Charles Seignobos passava, então, a figurar como um dos mais eminentes historiadores de seu tempo, o que lhe colocava numa posição complicada: de um lado, era o exemplo a ser seguido, do outro, o exemplo a ser combatido. Justamente em virtude disso, sua obra foi muito criticada pelos sociólogos durkheimianos, que buscavam conquistar espaços dentro da universidade francesa. Uma de suas estratégias para isso foi a realização de ataques sistemáticos às disciplinas já consolidadas no sistema de ensino e aos seus principais representantes. Seu maior crítico foi François Simiand, que em 1903 pronunciou uma comunicação na Sociedade de História Moderna – em que Charles Seignobos estava presente como ouvinte – intitulada “Método Histórico e Ciência Social: Estudo Crítico das Obras Recentes do Sr. Lacombe e do Sr. Seignobos”, na qual desenvolveu uma série de críticas à metodologia dos historiadores. A comunicação seria publicada no mesmo ano na Révue de Synthèse Historique, dirigida por Henri Berr,

A polêmica não parou por aí. O debate voltaria a ocorrer em 1906, no seio da principal sociedade de filosofia da época, a Sociedade Francesa de Filosofia, com uma comunicação de François Simiand intitulada “A Causalidade em História”, na qual faria uma série de críticas a Seignobos, sobretudo a respeito de sua obra “História Política da Europa Contemporânea”. No ano seguinte é a vez de Charles Seignobos rebater os argumentos de Simiand com uma comunicação pronunciada no mesmo local, intitulada “As Condições Práticas da Investigação das Causas no Trabalho Histórico”. Por fim, em 1908, novamente na Sociedade Francesa de Filosofia, Seignobos pronuncia uma nova comunicação, desta vez intitulada “O Desconhecido e o Inconsciente em História”, que contava com a presença ilustre de Émile Durkheim como ouvinte.

Esses exemplos ilustram muito bem a maneira incansável com a qual Charles Seignobos sempre defendeu a história e a colocou em debate. Ao contrário do que muitos pensam, sua reflexão quanto aos limites do conhecimento histórico sempre se mostrou muito apurada.

Ele chega ao topo de sua carreira acadêmica em 1921, sendo nomeado professeur de História Política dos Tempos Modernos e Contemporâneos, e se aposenta de suas funções em 1925.

Esperamos que este pequeno “perfil” desperte o interesse de mais pessoas por este personagem tão menosprezado nos cursos de Teoria da História e Historiografia.

 

Principais obras de Charles Seignobos (para acessá-las basta clicar nos títulos)

 

Le Régime Féodal en Bourgogne (1882).

Histoire de la Civilisation (1885).

Histoire des peuples de l’Orient (1890).

Histoire Politique de l’Europe contemporaine (1897).

Em parceria com Charles-Victor Langlois Introduction aux Étude Historique (1897).

La Méthode Historique Appliquée aux Sciences Sociales (1901).

Histoire de la Civilisation Contemporaine (1921).

Em parceria com P. Milioukov e L. Eisenmann Histoire de Russie (1932).

Essai d’histoire Comparée des peuples d’Europe (1932).

Histoire Sincère de la Nation Française (1933).

 

Referências

 

NOIRIEL, Gérard. Naissance du métier d’historien. Genèses. Sciences sociales et histoire, 1990, pp. 58-85.

PROST, Antoine. Charles Seignobos Revisité. Révue d’histoire, 1994, pp. 100-118.

Robson Bertasso

Graduando em História pela UFPR. Tenho interesse em temas relacionados à História da Historiografia e à História das Ciências.

2 comentários em “Uma vida dedicada à História: Charles Seignobos (1854-1942)

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